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Trilhas da Educação: Aprendendo a aprender e ensinando a ensinar – o método freiriano

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Criado em 23 de Setembro de 2016
Trilhas da Educação: Aprendendo a aprender e ensinando a ensinar – o método freiriano
Descrição

Em meados da década de 1960, uma experiência inédita chamava a atenção do mundo para uma cidadezinha no interior do Rio Grande do Norte chamada Angicos. Repórteres dos principais jornais norte-americanos e britânicos, além da imprensa brasileira, foram até lá para saber e contar para o mundo como cerca de 300 pessoas foram alfabetizadas em 40 horas. A experiência considerada ousada foi dirigida pelo então desconhecido Paulo Freire, que, a partir daí, tornou-se o mais célebre educador brasileiro. A metodologia, resultado de muitos anos de trabalho e reflexões do educador, acabou batizada com o seu nome. 

Com a popularização do método Paulo Freire, milhares de brasileiros puderam experimentar essa forma de aprender e ensinar. A proposta incentiva o alfabetizando a se apropriar da escrita e da palavra, para que entenda melhor o mundo e conquiste autonomia para transformar o meio em que vive, como divide conosco a jovem Kelly Cristina Guimarães Gregório. 

“Porque a partir do Paulo Freire você vê que não é só ler, não é só escrever, mas que vai além. A partir do ler e escrever você consegue enxergar o mundo e o seu lugar no mundo.”

Kelly tem 24 anos e está na graduação de Engenharia de Produção. Mesmo em uma área aparentemente distante da pedagogia, a estudante se interessou pela arte de ensinar. A prática veio a partir de atividades voluntárias. Hoje ela é presidente do Centro de Educação Paulo Freire (Cepafre), em Ceilândia, no Distrito Federal. Criado em 1985, o centro já alfabetizou mais 15 mil adultos e idosos, dentre eles, o avô de Kelly, seu José Ambrósio Pereira Nunes, de 72 anos.

“Hoje ele está no primeiro seguimento da EJA, que vai de primeira a quarta série (ano). Então, ele domina a leitura, consegue escrever, todas essas coisas. As operações básicas de matemática também.”

A jovem conta que as dificuldades vividas pela família do avô não deixaram tempo para os estudos durante sua infância e adolescência, quando morava no interior da Bahia. Seu José Ambrósio precisou cuidar da mãe e dos irmãos para que eles não passassem fome.

“Na realidade, a família do meu avô era muito pobre, né, no interior da Bahia. Muito, muito, muito pobre mesmo, de faltar alimento e tudo mais. Então, ele sempre teve que trabalhar. E ele é um dos filhos mais velhos. O meu bisavô faleceu muito cedo. Então, ele que assumiu essa responsabilidade de trabalhar, para sustentar os irmãos e tudo mais. E aí, não tinha como estudar.”

Kelly viu a história de seu avô se repetir nos relatos das turmas de alfabetização do Cepafre, pessoas que têm entre 40 a 80 anos. Durante as aulas em que auxilia na alfabetização de moradores da região, ela trabalha com palavras-chave, com base no método freiriano. Palavras que possuem significado para os alunos. Foi aí que a jovem pode sentir o porquê de tanta gente não saber ler e escrever.

“Quando chegam ‘lote’, ‘barraco’, aí, a gente vai conhecendo um pouquinho da vida deles, né. Não é porque eles não quiseram estudar, mas é porque não tinham essa opção de estudar. Tinha que trabalhar, tinha que sustentar a família. Então, estudar era um outro plano. Se desse algum dia na vida.”

A jovem Kelly e seus cinco irmãos não repetiram a história de seu avô: e todos tiveram a oportunidade de estudar em escola pública e na idade certa. Mas, ela acredita que se tivessem tido a oportunidade de serem alfabetizados pelo método de Paulo Freire a educação teria outra dimensão.

“Querendo ou não, na educação regular ainda é aquela educação bancária, né. Onde o professor é o dono do saber. E no método Paulo freire não, não tem um dono do saber. E eu acho que aprender desse modo é muito tranquilo e é muito mais fácil. Até pra você se encontrar no mundo, e conhecer sua realidade, porque você tá ali, o que poderia mudar e como pode mudar.”

No último dia 19 de setembro, foi lembrada a data de aniversário de Paulo Freire. Ele completaria 95 anos. Oriundo de uma família de classe média, Freire conviveu com a pobreza e a fome na infância, durante a depressão de 1929. A experiência o ajudou a pensar nos pobres e o levou, mais tarde, a elaborar seu método de ensino. Fez faculdade de direito, mas optou por lecionar língua portuguesa. Em 2012, foi declarado o patrono da educação brasileira.

“O saber é compartilhado. Então, mesmo tempo que você ensina, você aprende.”

 

Texto e Narração: Josiane Canterle; Masterização: Jeyson Gonzaga Cavalcante e vinheta: Luiz Antônio

Categoria: Boletim
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